Desdolarizacao: os BRICS conseguem destronar o dolar?
O bloco fala em moeda comum, testa trilhos de pagamento fora de Washington e provoca Trump. Separamos o ruido do que de fato mudou em 2026.
- O dolar ainda responde por cerca de 58% das reservas cambiais globais — a hegemonia nao caiu, mas vem escorregando ha uma decada.
- O BRICS abandonou a fantasia de uma moeda unica e mira algo mais realista: trilhos de pagamento que dispensem o dolar no comercio bilateral.
- Ja circulam alternativas concretas: o CIPS chines, o piloto mBridge de CBDCs e um sistema inspirado no PIX brasileiro.
- Trump ameacou tarifa de 100% a quem largar o dolar — e a propria arma das sancoes e o que empurra paises para as alternativas.
A moeda que virou arma
Em fevereiro de 2022, quando o Ocidente congelou cerca de US$ 300 bilhoes em reservas do banco central russo, o mundo aprendeu uma licao que nao estava nos manuais de economia: o dolar nao e apenas uma unidade de conta, e uma infraestrutura sob controle politico. Quem depende dela pode, em teoria, ser desligado da rede. Essa constatacao — de que a moeda de reserva global e tambem um instrumento de coercao — fez governos que jamais simpatizaram com Moscou olharem para suas proprias reservas e perguntarem: e se um dia for comigo?
E dessa inseguranca, muito mais do que de qualquer ideologia, que nasce a desdolarizacao contemporanea. Nao se trata de amor ao yuan ou de odio a Washington. Trata-se de diversificacao de risco — o mesmo instinto que leva um investidor prudente a nao concentrar todo o patrimonio num unico ativo. Paises grandes, com superavits comerciais e ambicoes regionais, passaram a tratar a dependencia do dolar como uma vulnerabilidade estrategica a ser reduzida com calma, sem rupturas.
O que ‘desdolarizacao’ realmente significa
O termo sofre de inflacao retorica. Para o publico, evoca o colapso iminente do dolar; na pratica, descreve um movimento lento e multifacetado. Desdolarizar e reduzir a exposicao ao dolar em tres frentes: nas reservas dos bancos centrais (trocar parte dos titulos americanos por ouro, euro ou yuan), no faturamento do comercio (fechar contratos em moedas locais) e nos trilhos de pagamento (usar sistemas que nao passem pela infraestrutura financeira dos EUA).
Nenhuma dessas frentes exige uma ‘moeda do BRICS’ — ideia que o proprio bloco, na pratica, ja arquivou por inviavel. Uma moeda comum exigiria abrir mao de soberania monetaria, algo que China, India e Russia jamais fariam entre si. O que avanca e mais modesto e mais poderoso: a construcao paciente de alternativas paralelas que corroem a exclusividade do dolar sem precisar substitui-lo de uma vez.
Os trilhos ja estao em operacao
Enquanto a discussao sobre uma moeda comum rende manchetes, o trabalho de engenharia acontece longe dos holofotes. A China opera o CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), sua alternativa ao SWIFT: em dezembro de 2025 ja reunia 193 participantes diretos e mais de 1.500 indiretos, movimentando mais de US$ 26 trilhoes ao ano. Nao substitui o SWIFT — mas oferece uma saida caso a rede ocidental seja cortada.
No plano das moedas digitais de bancos centrais, o piloto mBridge — que conecta China, Emirados, Tailandia e Hong Kong — ja liquidou mais de US$ 55 bilhoes em transacoes transfronteiricas usando CBDCs, sem tocar no dolar. E o modelo que mais entusiasma os tecnocratas do bloco tem sotaque brasileiro: a Forca-Tarefa de Pagamentos do BRICS estuda um sistema de liquidacao instantanea entre bancos centrais inspirado no PIX, o arranjo que reorganizou os pagamentos no Brasil em poucos anos.
2026: a vez da India
Em 2026 a India assume a presidencia rotativa do BRICS e sediara a 18a Cupula do grupo. Nova Delhi propos formalmente um mecanismo conjunto de pagamentos entre os membros, ancorado em CBDCs e transacoes ponto a ponto entre bancos centrais. A escolha da India como anfitria e simbolica: e o membro mais cauteloso do bloco, cioso de suas relacoes com o Ocidente, o que sinaliza que o projeto de pagamentos e tratado como infraestrutura tecnica, e nao como cruzada anti-americana.
Nada disso e simples. O yuan nao e plenamente conversivel, a China mantem controles de capital rigidos e a confianca entre India e China e limitada. Substituir a liquidez, a profundidade juridica e a previsibilidade do mercado de titulos americanos leva decadas, nao trimestres. Quem promete o fim do dolar para o ano que vem esta vendendo narrativa, nao analise.
A resposta americana — e seu paradoxo
Washington percebeu o movimento. Donald Trump ameacou publicamente impor tarifas de 100% a qualquer pais do BRICS que tentasse criar uma moeda rival ou abandonar o dolar no comercio. A ameaca funciona como dissuasao de curto prazo — poucas economias querem perder acesso ao mercado consumidor americano. Mas embute um paradoxo que os defensores do livre mercado nao deixam de notar: quanto mais o dolar e usado como instrumento de pressao — via sancoes ou tarifas — maior o incentivo para que outros construam saidas.
Ha aqui uma tensao classica entre poder e prudencia. A forca do dolar sempre repousou menos na coercao e mais na confiabilidade: contratos honrados, tribunais independentes, um banco central com credibilidade. Cada uso da moeda como arma cobra um preco silencioso dessa reputacao. A hegemonia monetaria, como qualquer capital de confianca, gasta-se quando sacada em excesso — um argumento que soa conservador no melhor sentido: preserva-se o que se tem tratando-o com parcimonia.
Onde o cripto entra
Para o investidor de cripto, a desdolarizacao tem duas leituras. A primeira e macro: num mundo que busca ativos neutros, fora do alcance de qualquer governo, o Bitcoin aparece na conversa ao lado do ouro como reserva de valor apolitica — escassa, portavel e imune a congelamento. A segunda e mais imediata e ironica: boa parte da liquidacao transfronteirica que foge do sistema tradicional hoje passa por stablecoins de dolar, como USDT e USDC. Ou seja, muito do comercio ‘sem bancos americanos’ continua, no fundo, dolarizado — apenas em trilhos privados e digitais.
As stablecoins atreladas ao dolar sao, hoje, um dos maiores compradores liquidos de titulos do Tesouro americano. A propria tecnologia que promete ‘libertar’ do dolar acaba, em muitos casos, reforcando sua demanda global. A desdolarizacao e menos linear do que os slogans sugerem.
Moeda e, no fim, confianca
Vale uma reflexao final. Uma moeda de reserva nao se decreta — se conquista, lentamente, pela soma de milhoes de decisoes de estranhos que preferem guardar seu valor naquele papel e nao em outro. O dolar reina ha oito decadas menos por imposicao militar e mais porque, na hora do medo, o mundo ainda corre para ele. Enquanto nenhum rival oferecer a mesma combinacao de liquidez, seguranca juridica e previsibilidade, a desdolarizacao seguira sendo erosao gradual, nao revolucao.
Mas erosao gradual tambem e mudanca. O mundo caminha para um sistema mais multipolar — varias moedas, varios trilhos, menos exclusividade. Para o observador atento, o interessante nao e torcer pelo fim do dolar nem pela sua eternidade, e entender que a confianca, esse ativo invisivel, esta sendo redistribuida diante de nossos olhos. E confianca, uma vez repartida, raramente volta a se concentrar como antes.
- O dolar nao esta em colapso: ~58% das reservas globais e uma lideranca folgada. Desconfie de quem anuncia seu fim para amanha.
- O jogo real nao e uma ‘moeda do BRICS’, e a construcao de trilhos de pagamento paralelos — CIPS, mBridge e sistemas ao estilo PIX.
- A arma das sancoes tem efeito bumerangue: quanto mais o dolar e politizado, maior o incentivo para que outros criem saidas.
- Para o cripto, o vetor macro favorece ativos neutros como o Bitcoin — mas ironicamente sao as stablecoins de dolar que hoje dominam a liquidacao ‘alternativa’.
Nota de neutralidade: este texto procura mapear forcas economicas e geopoliticas sem endossar bloco algum. Reconhecemos que ha analistas que veem a multipolaridade monetaria como saudavel e distributiva, e outros que a consideram fonte de fragmentacao e instabilidade. Ambas as leituras merecem exame.