Aprovações de token: o cheque em branco da carteira
A fraude mais silenciosa do cripto não pede a sua seed phrase. Ela pede a sua assinatura — e você a concede com um clique.
- Ao usar uma DEX ou app DeFi, você concede aprovações — permissões para um contrato mover seus tokens. Elas persistem depois que você fecha a aba.
- Golpistas não precisam da sua seed phrase: basta convencê-lo a assinar uma aprovação maliciosa (a chamada ice phishing).
- Em 2024, drainers de carteira levaram cerca de US$ 494 milhões de mais de 332 mil vítimas, segundo a Scam Sniffer.
- A defesa central é gratuita: revisar e revogar aprovações antigas em ferramentas como o revoke.cash.
A fraude que não pede a sua senha
Durante anos, a educação em cripto reduziu a segurança a um único mandamento: nunca revele sua seed phrase. O conselho continua correto — e continua insuficiente. Uma geração inteira de golpes aprendeu a contorná-lo. O ladrão moderno não quer as suas doze palavras. Ele quer a sua assinatura, entregue de livre e espontânea vontade, num pop-up que parece idêntico ao de qualquer aplicativo legítimo.
O nome técnico é approval phishing, ou ice phishing. O princípio é perverso em sua elegância: em vez de invadir a sua carteira, o golpista faz com que você mesmo autorize a saída dos fundos. Nenhuma senha é quebrada, nenhuma chave é vazada. A transação que rouba o seu dinheiro é, do ponto de vista da blockchain, perfeitamente válida — porque foi você quem a assinou.
O que é, afinal, uma aprovação de token
Tokens no padrão ERC-20 (e seus primos em outras redes) não são movidos diretamente por aplicativos. Quando você troca um token numa exchange descentralizada como a Uniswap, o contrato da DEX não pode simplesmente pegar os seus fundos — ele precisa de permissão. Essa permissão é a approval: uma transação em que você diz à blockchain “autorizo o contrato X a gastar até Y unidades do meu token Z”.
É um mecanismo legítimo e necessário. O problema mora em dois detalhes. Primeiro: a aprovação não expira — ela permanece ativa até que você a revogue explicitamente, mesmo anos depois de ter fechado o site. Segundo: por conveniência, a imensa maioria dos aplicativos solicita uma aprovação ilimitada (o famoso infinite approval), para que você não precise reassinar a cada operação. Você, na prática, assina um cheque em branco e o deixa sobre a mesa.
Uma aprovação ilimitada concede ao contrato o direito de mover todo o seu saldo daquele token — hoje e no futuro. Se o contrato for malicioso, ou se um contrato legítimo for comprometido, o limite do roubo é o seu saldo inteiro, não o valor da transação que você pretendia fazer.
Permit e Permit2: quando assinar já é gastar
A evolução mais recente — e mais traiçoeira — dispensa até a transação. Padrões como o Permit (EIP-2612) e o Permit2, da Uniswap, permitem autorizar gastos por meio de uma simples assinatura, sem pagar gas e sem que nada apareça no seu histórico on-chain no momento. Foram criados para melhorar a experiência do usuário. Tornaram-se, também, o instrumento predileto dos golpistas.
A razão é psicológica. Usuários aprenderam a desconfiar de transações que pedem gas, mas assinam mensagens sem pensar — afinal, “é só uma assinatura para fazer login”. Um site falso de airdrop, um pop-up de WalletConnect clonado ou um anúncio patrocinado apresenta uma mensagem criptografada e ininteligível; você a aprova achando que prova identidade, e na verdade concede permissão para esvaziar a carteira depois. É a assinatura cega (blind signing): você autoriza o que não consegue ler.
A economia industrial dos drainers
O que assusta não é apenas o valor roubado, mas a sofisticação da indústria que o sustenta. Os wallet drainers são vendidos como serviço — drainer-as-a-service — a criminosos sem conhecimento técnico, em troca de uma fatia do saque. Kits como o Inferno Drainer, responsável por mais de US$ 80 milhões em roubos e por mais de 16 mil domínios maliciosos imitando mais de 100 marcas, ou o Pink Drainer, que levou mais de US$ 85 milhões de 21 mil vítimas antes de anunciar aposentadoria em maio de 2024, transformaram a fraude num negócio escalável, com suporte e atualizações.
O caso que melhor ilustra o poder do vetor é o da BadgerDAO, em dezembro de 2021: atacantes comprometeram a infraestrutura do site legítimo e injetaram código que pedia aprovações ilimitadas. Cerca de US$ 120 milhões saíram de quase 500 carteiras — sem que uma única seed phrase fosse tocada. O contrato estava seguro; os usuários, não. A lição atravessa os anos: a interface que você vê pode mentir, ainda que o protocolo por trás seja honesto.
No primeiro semestre de 2026, o ecossistema registrou 207 incidentes de roubo — recorde histórico em número de eventos —, com cerca de US$ 972 milhões subtraídos, segundo a TRM Labs. Os grandes furtos migraram para o comprometimento de chaves e de infraestrutura, mas o approval phishing segue como a porta de entrada mais comum para o usuário comum.
Address poisoning: o inimigo no seu histórico
Um primo próximo do golpe de aprovação explora não a assinatura, mas o hábito. No address poisoning (envenenamento de endereço), o golpista gera um endereço “vaidoso” cujos primeiros e últimos caracteres são idênticos aos de um endereço com o qual você já transacionou. Em seguida, envia a você uma transação irrisória, apenas para plantar esse endereço-clone no seu histórico. Quando você for repetir um pagamento e, por preguiça, copiar o endereço do histórico em vez de conferi-lo por inteiro, mandará os fundos ao impostor. Um único episódio documentado custou à vítima cerca de US$ 68 milhões em Bitcoin embrulhado (WBTC).
Como se defender de verdade
A boa notícia é que a defesa mais eficaz é gratuita e cabe num hábito. Trate cada assinatura como você trata a sua seed phrase: com desconfiança proporcional ao que ela pode custar. Antes de assinar, leia o que a carteira mostra; se a mensagem for ininteligível e o site prometer um airdrop generoso, o preço provável é a sua carteira inteira. Ferramentas como o revoke.cash e o verificador de aprovações do Etherscan listam tudo o que você já autorizou e permitem revogar com um clique — faça disso uma faxina periódica.
Complemente com camadas: use uma carteira de hardware para valores relevantes, mantenha uma hot wallet pequena e descartável para experimentar com aplicativos novos, e nunca conecte a carteira principal a sites encontrados por anúncios ou links de redes sociais. A regra de ouro do infinite approval: se o app permite, aprove apenas o valor exato da operação, não o infinito.
- O mantra “nunca revele sua seed” é necessário, mas incompleto: a maioria dos roubos ao usuário comum passa por assinaturas, não por senhas.
- Aprovações não expiram. Revise-as e revogue as antigas periodicamente no revoke.cash ou no Etherscan.
- Evite infinite approval quando possível; aprove o valor exato. Desconfie de qualquer assinatura que você não consegue ler.
- Separe carteiras por risco: hardware para o patrimônio, hot wallet descartável para experimentos.
A liberdade e o seu preço
Há uma verdade filosófica embutida nessa mecânica. A promessa fundadora do cripto é a autocustódia: ser o próprio banco, sem intermediários que peçam licença ou cobrem pedágio. Mas ser o próprio banco significa também ser o próprio departamento de segurança, o próprio compliance e o próprio seguro contra fraude. A aprovação maliciosa é o reverso exato da soberania financeira — o momento em que a liberdade de assinar sem pedir permissão a ninguém se converte na liberdade de errar sem que ninguém possa desfazer. Não há botão de estorno na blockchain. Essa ausência é a sua maior força e o seu risco mais íntimo. A defesa, no fim, não é um software: é a disciplina de quem entende que autonomia e responsabilidade são a mesma moeda, vista de dois lados.