Phishing de assinatura: o golpe que dispensa sua senha
Os ladrões de cripto não querem mais a sua seed phrase. Querem apenas um clique — e uma assinatura que você nem entende ter dado.
- Os wallet drainers não roubam sua senha nem sua seed phrase: induzem você a dar uma assinatura que autoriza mover os fundos.
- Em 2025, o phishing de carteira causou US$ 83,85 milhões em perdas — 83% menos que em 2024, mas ainda com 106 mil vítimas.
- As assinaturas Permit e Permit2 concentraram 38% das perdas nos grandes casos: um ‘sim’ silencioso, sem transação visível na blockchain.
- A defesa quase nunca é técnica — é disciplina: ler o que se assina, revogar aprovações antigas e desconfiar de toda urgência.
O golpe trocou de porta
Durante anos, a pedagogia de segurança em cripto girou em torno de um único mandamento: nunca compartilhe sua seed phrase. A imagem do golpe era quase artesanal — um site falso pedia as doze palavras, o usuário desavisado digitava, e a carteira era esvaziada. Esse crime ainda existe, mas envelheceu. A fronteira do roubo se deslocou para um território mais sutil, onde o ladrão não precisa mais da sua senha, da sua chave privada ou das suas palavras de recuperação. Precisa apenas que você assine algo.
O nome técnico dessa família de ataques é phishing de assinatura, executado por ferramentas chamadas wallet drainers (drenadores de carteira). Em vez de furtar o segredo que dá acesso à carteira, o golpe convence o dono a conceder, com um clique, permissão para que os fundos sejam transferidos. É uma diferença conceitual decisiva: o cofre continua trancado e a chave permanece com você — mas você mesmo assinou a ordem de saque. Num mercado como o de setembro de 2026, com o Bitcoin oscilando abaixo dos US$ 77 mil sob tensão geopolítica e dados de inflação no radar, a volatilidade multiplica os cliques apressados. E pressa é o solo em que o phishing floresce.
Transação e assinatura: a distinção que salva
Para entender o golpe, é preciso separar dois gestos que a carteira apresenta de forma quase idêntica. O primeiro é a transação: uma ordem gravada na blockchain, que consome taxa de rede (o gas), aparece no histórico e é visível a qualquer um. O segundo é a assinatura off-chain: uma mensagem criptográfica que você aprova com sua chave, mas que não é registrada na rede no momento em que é dada. Ela é gratuita, não pede gas e, na tela, costuma parecer inofensiva — um bloco de texto técnico que quase ninguém lê.
É exatamente nessa segunda porta que o drainer entra. Uma assinatura pode carregar uma autorização poderosa: permitir que um endereço terceiro movimente seus tokens. Como nada acontece na blockchain no instante da assinatura, o usuário tem a falsa sensação de que ‘apenas conectou a carteira’ ou ‘só confirmou login’. O saque real vem depois, quando o golpista usa a permissão assinada para transferir tudo de uma vez. Quando a vítima percebe, a transação já está confirmada e é irreversível.
Permit e Permit2: o cheque em branco silencioso
Os tokens do padrão ERC-20 sempre exigiram uma etapa de aprovação antes que um contrato pudesse gastá-los. Tradicionalmente, essa aprovação era uma transação on-chain, com gas e registro. O padrão EIP-2612 introduziu o Permit: uma aprovação que pode ser concedida por assinatura, sem gas e sem transação imediata. A intenção era nobre — reduzir custos e fricção. O efeito colateral foi abrir uma via elegante para o roubo.
O Permit2, criado pela Uniswap, generalizou a ideia: um contrato único que gerencia aprovações para múltiplos aplicativos por meio de assinaturas. Conveniente para o usuário legítimo, e igualmente conveniente para o atacante. Segundo levantamento da Scam Sniffer, assinaturas Permit e Permit2 responderam por 38% das perdas nos grandes casos de 2025. O maior roubo isolado do ano — US$ 6,5 milhões, em setembro — veio de uma única assinatura Permit. Um clique, um cheque em branco.
Porque a assinatura é gratuita e não dispara o alerta de gas, ela burla o instinto de cautela que uma transação cara costuma acionar. Antes de assinar, pergunte: por que este site precisa de uma permissão para mover meus tokens? Se a resposta não for óbvia, não assine.
A indústria por trás: Drainer-as-a-Service
O phishing de assinatura deixou de ser trabalho de programadores isolados e virou um mercado. No modelo Drainer-as-a-Service (drenador como serviço), operadores fornecem os scripts prontos, os modelos de sites falsos, a hospedagem e até suporte a afiliados — cobrando uma fatia padrão de cerca de 20% de tudo o que é roubado. O golpista de ponta não precisa saber programar; basta distribuir os links envenenados e dividir o butim.
Os números da infraestrutura impressionam. O Inferno Drainer foi associado a mais de US$ 80 milhões em furtos e a mais de 16 mil domínios de phishing; mesmo após anunciar encerramento, sua estrutura seguiu ativa. O Pink Drainer acumulou mais de US$ 85 milhões roubados de 21 mil vítimas antes de se ‘aposentar’ em maio de 2024. É crime organizado com métricas de startup — funil de conversão, taxa de sucesso e receita recorrente.
EIP-7702: a nova fronteira pós-Pectra
A atualização Pectra da rede Ethereum trouxe o EIP-7702, que permite a uma carteira comum (uma EOA, na sigla técnica) delegar temporariamente comportamento a um contrato e executar várias ações numa só operação. É um avanço genuíno de usabilidade — abre caminho para carteiras inteligentes e pagamentos de gas mais flexíveis. Mas toda nova capacidade é também uma nova superfície de ataque. Já em 2025 surgiram assinaturas maliciosas em lote baseadas no EIP-7702, capazes de encadear autorizações e esvaziar uma carteira em um único gesto assinado. A lição se repete: cada camada de conveniência precisa ser acompanhada da mesma dose de vigilância.
Como fechar a porta
A boa notícia é que a defesa raramente exige conhecimento técnico avançado — exige método. Primeiro, leia o que você assina: carteiras sérias hoje decodificam a mensagem e simulam o resultado, mostrando em português claro que uma assinatura autoriza gastar seus tokens. Se a carteira alerta ‘este site poderá transferir seus fundos’, trate como sinal vermelho. Segundo, revogue aprovações antigas periodicamente em ferramentas como o revoke.cash — cada permissão viva é uma porta destrancada. Terceiro, separe carteiras: uma ‘quente’, com pouco saldo, para interagir com aplicativos novos, e uma cold wallet para guardar o grosso, longe de qualquer assinatura casual.
Some a isso os hábitos de sempre: acessar aplicativos apenas por endereços salvos nos favoritos, desconfiar de airdrops surpresa e de ‘suportes’ que aparecem sozinhos, e nunca agir sob a pressão de um cronômetro. O phishing depende da urgência; a calma é, literalmente, o antídoto.
Favoritar os sites oficiais, revogar aprovações a cada poucas semanas, manter o grosso em cold wallet e ler cada assinatura antes de confirmar. Nenhum desses passos é técnico — todos são disciplina. E disciplina é o que separa quem guarda de quem perde.
- O roubo moderno não pede sua senha: pede uma assinatura. Aprenda a diferença entre transação e assinatura off-chain.
- Permit e Permit2 são conveniências reais que viraram vetores de ataque. Toda permissão para ‘mover seus tokens’ merece suspeita.
- O crime é industrial: kits prontos, afiliados e 20% para o operador. Você não enfrenta um hacker, mas uma cadeia de produção.
- A defesa é comportamental — ler, revogar, separar carteiras e nunca decidir com pressa. Segurança em cripto é rotina, não talento.
A liberdade tem um custo
Há uma verdade desconfortável no coração da autocustódia. Ser o próprio banco é uma forma rara de soberania — ninguém pode congelar seus fundos, negar um saque ou vetar uma transação. Mas soberania sem responsabilidade é apenas exposição. A mesma arquitetura que remove o intermediário remove também a rede de proteção: não há gerente para ligar, nem estorno para pedir. A liberdade de não depender de ninguém vem casada com o dever de ser, você mesmo, a sua própria segurança.
Isso não é um argumento contra a autocustódia — é o preço honesto dela, e um preço que muitos julgarão justo diante da alternativa de confiar cegamente em terceiros. Há quem prefira o conforto de uma corretora regulada que assume o risco operacional, e essa é uma escolha legítima, com seus próprios trade-offs de confiança e controle. O ponto não é qual caminho é superior, mas que ambos exigem lucidez. Quem opta por segurar as próprias chaves assume um pacto: a liberdade é sua, e a vigilância também. A assinatura que esvazia uma carteira, no fim, quase nunca é a do golpista. É a da própria vítima.