BRICS Pay: um PIX global para contornar o dólar
O bloco testa um trilho de pagamentos inspirado no PIX. A ambição é grande; os obstáculos, maiores ainda.
- BRICS Pay é um sistema de pagamentos em teste, inspirado no PIX brasileiro, para liquidar transações internacionais direto em moedas locais, sem passar pelo dólar nem pelo SWIFT.
- O Conselho Empresarial do BRICS estima que, bem estruturado, o sistema poderia responder por 15% a 20% do comércio internacional até 2030.
- O pano de fundo é concreto: a fatia do dólar nas reservas globais caiu para 56,9% no 3º trimestre de 2025 — abaixo de 57% pela primeira vez desde 1995.
- Analistas são céticos: o maior obstáculo não é a tecnologia, e sim a heterogeneidade entre as economias do bloco e a pergunta não respondida — em qual moeda tudo isso será feito?
O dinheiro também tem encanamento
Quando você faz uma transferência internacional, o dinheiro raramente viaja sozinho. Ele percorre uma rede de mensagens entre bancos — e, desde os anos 1970, essa rede atende por um nome: SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), uma cooperativa sediada na Bélgica que conecta mais de 11 mil instituições. O SWIFT não move dinheiro; ele move instruções sobre dinheiro. Mas quem controla as instruções controla o fluxo. E, como a maioria dessas instruções acaba convertida em dólares em algum ponto da cadeia, controlar o dólar é, na prática, controlar boa parte do comércio mundial.
É esse encanamento que o BRICS Pay pretende, se não substituir, ao menos contornar. A proposta, ainda em fase de testes, é um sistema de pagamentos que permita transações internacionais instantâneas direto entre as moedas nacionais dos países-membros, usando tecnologia de blockchain e inspiração declarada no PIX, o arranjo instantâneo do Banco Central do Brasil que, em poucos anos, reorganizou os pagamentos domésticos do país.
Por que agora: a arma que saiu pela culatra
A desdolarização é uma conversa antiga, mas ganhou urgência em fevereiro de 2022. Após a invasão da Ucrânia, o Ocidente congelou cerca de US$ 300 bilhões em reservas do banco central russo e desconectou bancos russos do SWIFT. Para Moscou foi um golpe; para o resto do mundo, uma lição. Reservas em dólar, que pareciam dinheiro guardado em cofre, revelaram-se um ativo que o emissor pode congelar à distância. Vários países concluíram que depender de um sistema que pode ser desligado por decisão de Washington é um risco geopolítico — não uma conveniência.
Os números dão corpo à inquietação. A participação do dólar nas reservas globais, segundo o levantamento COFER do FMI, recuou ao menor patamar em três décadas. Não é um colapso — é uma erosão lenta e persistente. E erosão, em finanças, costuma ser mais perigosa do que ruptura: ninguém toca o alarme.
O que já existe de verdade
Aqui convém separar manchete de infraestrutura. O BRICS Pay ainda é um projeto em teste, mas ele não nasce no vácuo: apoia-se em trilhos que já funcionam. O mais relevante é o CIPS, o sistema chinês de pagamentos interbancários, pensado como alternativa ao SWIFT para transações em yuan. Em março de 2026, o CIPS processou mais de 750 mil transações em um único mês, movimentando o equivalente a cerca de US$ 270 bilhões, com participantes diretos e indiretos espalhados por mais de cem países.
Em paralelo, o comércio dentro do bloco já migrou boa parte para moedas locais — estimativas apontam que cerca de dois terços das trocas intra-BRICS hoje dispensam o dólar, contra menos de um quinto uma década atrás. O BRICS Pay seria, nessa leitura, menos uma revolução e mais a camada de varejo que faltava: a interface que conecta esses sistemas e permite que uma empresa média, e não só um banco central, pague um fornecedor do outro lado do mundo sem triangular por Nova York.
A ambição — e o número que a resume
O Conselho Empresarial do BRICS projeta que, se bem estruturado e com os incentivos certos, o BRICS Pay poderia responder por 15% a 20% do comércio internacional até 2030. O sistema deve ser vitrine da 18ª Cúpula do BRICS, prevista para setembro de 2026, sob presidência rotativa da Índia. A retórica oficial é confiante. A letra miúda, nem tanto.
A pergunta mais sensível do projeto segue sem resposta. Pagar “em moedas locais” é simples entre dois países; entre nove ou dez, com câmbios voláteis e graus de conversibilidade muito diferentes, a conta fica espinhosa. Falta ao bloco uma moeda com a liquidez, a estabilidade e a confiança que o dólar acumulou ao longo de um século — e nenhum candidato interno quer ceder esse protagonismo a outro.
O que dizem os céticos
Para Matheus Cecílio, doutor em economia política internacional pela UFRJ, o impacto imediato do BRICS Pay seria operacional, não geopolítico: reduzir custos e atritos para quem já comercia dentro do bloco, sem a pretensão de aposentar o dólar. A implementação técnica, diz ele, é viável no curto e médio prazo — o difícil é o resto. Igualar a confiança e o alcance da moeda americana exigiria mudanças estruturais muito mais profundas, e uma moeda forte capaz de sustentá-las permanece, nas suas palavras, uma condição distante.
Luiz Antonio Joia, da FGV/Ebape, aponta o obstáculo de fundo: a heterogeneidade do bloco. O PIX funciona porque opera dentro de uma única jurisdição, sob um único banco central, com uma única moeda e um único arcabouço regulatório. O BRICS Pay teria de costurar várias moedas, vários sistemas jurídicos, infraestruturas tecnológicas desiguais e interesses políticos que nem sempre convergem. A China é altamente digitalizada; outros membros ainda têm parcelas grandes da população se adaptando a pagamentos digitais. No curto prazo, concordam os analistas, o sistema conviveria com o SWIFT — não o substituiria.
Pagamento virou geopolítica — e o PIX provou
Há um detalhe revelador nessa história: o próprio PIX, modelo do projeto, tornou-se objeto de disputa. Ao oferecer transferências instantâneas e gratuitas, ele reduziu a dependência de bandeiras de cartão como Visa e Mastercard — e isso incomodou. O episódio ilustra uma verdade que o BRICS Pay apenas amplia para a escala global: infraestrutura de pagamento nunca é neutra. Quem define o trilho define quem cobra pedágio, quem vê os dados e quem pode ser barrado. A “neutralidade” de um sistema de pagamentos é sempre a neutralidade conveniente a quem o controla.
É aqui que convém um olhar sóbrio. A queixa dos países do BRICS contra a politização do dólar tem fundamento: um meio de troca global que pode ser desligado por decisão unilateral deixa de ser apenas dinheiro e vira instrumento de poder. Mas trocar um monopólio por um arranjo coordenado por Estados — vários deles com histórico de controle de capitais e câmbio administrado — não garante mais liberdade ao usuário final; pode apenas mudar o endereço de quem segura a chave. A concorrência entre trilhos tende a beneficiar quem paga; a substituição de um guardião por um comitê de guardiões, nem sempre.
- BRICS Pay é real como projeto, mas ainda é teste: a infraestrutura de base (como o CIPS) já funciona; a camada que une tudo, não.
- O motor da desdolarização é político, não técnico — o congelamento das reservas russas em 2022 ensinou que depender de um sistema desligável é risco, não conveniência.
- O gargalo decisivo é monetário: sem uma moeda comum confiável e líquida, pagar “em moedas locais” entre dez economias desiguais é mais fácil de anunciar do que de operar.
- Desconfie das duas narrativas extremas: nem o dólar vai ruir amanhã, nem o status quo é eterno. A disputa real é por trilhos — e trilhos são poder.
O dinheiro é, no fundo, uma tecnologia de confiança — e confiança não se decreta, se acumula. O dólar levou um século para conquistar a sua; perdê-la leva décadas, não meses. O que o BRICS Pay de fato revela não é o fim de uma hegemonia, mas o início de um mundo com mais de um encanamento para o dinheiro. E talvez seja isso, mais do que qualquer moeda em particular, o que redefine o século: não quem vence, mas o fato de haver, enfim, concorrência.