BRICS Pay: um PIX global para contornar o dólar

Geopolitica

BRICS Pay: um PIX global para contornar o dólar

O bloco testa um trilho de pagamentos inspirado no PIX. A ambição é grande; os obstáculos, maiores ainda.

Academy Ulianov · Leitura de 8 min
Em 30 segundos
  • BRICS Pay é um sistema de pagamentos em teste, inspirado no PIX brasileiro, para liquidar transações internacionais direto em moedas locais, sem passar pelo dólar nem pelo SWIFT.
  • O Conselho Empresarial do BRICS estima que, bem estruturado, o sistema poderia responder por 15% a 20% do comércio internacional até 2030.
  • O pano de fundo é concreto: a fatia do dólar nas reservas globais caiu para 56,9% no 3º trimestre de 2025 — abaixo de 57% pela primeira vez desde 1995.
  • Analistas são céticos: o maior obstáculo não é a tecnologia, e sim a heterogeneidade entre as economias do bloco e a pergunta não respondida — em qual moeda tudo isso será feito?

O dinheiro também tem encanamento

Quando você faz uma transferência internacional, o dinheiro raramente viaja sozinho. Ele percorre uma rede de mensagens entre bancos — e, desde os anos 1970, essa rede atende por um nome: SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), uma cooperativa sediada na Bélgica que conecta mais de 11 mil instituições. O SWIFT não move dinheiro; ele move instruções sobre dinheiro. Mas quem controla as instruções controla o fluxo. E, como a maioria dessas instruções acaba convertida em dólares em algum ponto da cadeia, controlar o dólar é, na prática, controlar boa parte do comércio mundial.

É esse encanamento que o BRICS Pay pretende, se não substituir, ao menos contornar. A proposta, ainda em fase de testes, é um sistema de pagamentos que permita transações internacionais instantâneas direto entre as moedas nacionais dos países-membros, usando tecnologia de blockchain e inspiração declarada no PIX, o arranjo instantâneo do Banco Central do Brasil que, em poucos anos, reorganizou os pagamentos domésticos do país.

Por que agora: a arma que saiu pela culatra

A desdolarização é uma conversa antiga, mas ganhou urgência em fevereiro de 2022. Após a invasão da Ucrânia, o Ocidente congelou cerca de US$ 300 bilhões em reservas do banco central russo e desconectou bancos russos do SWIFT. Para Moscou foi um golpe; para o resto do mundo, uma lição. Reservas em dólar, que pareciam dinheiro guardado em cofre, revelaram-se um ativo que o emissor pode congelar à distância. Vários países concluíram que depender de um sistema que pode ser desligado por decisão de Washington é um risco geopolítico — não uma conveniência.

Os números dão corpo à inquietação. A participação do dólar nas reservas globais, segundo o levantamento COFER do FMI, recuou ao menor patamar em três décadas. Não é um colapso — é uma erosão lenta e persistente. E erosão, em finanças, costuma ser mais perigosa do que ruptura: ninguém toca o alarme.

56,9%
fatia do dólar nas reservas globais (FMI, 3º tri de 2025) — abaixo de 57% pela 1ª vez desde 1995
~72%
pico da participação do dólar nas reservas, atingido em 2001
US$ 300 bi
reservas russas congeladas em 2022 — o estopim da nova corrida por alternativas

O que já existe de verdade

Aqui convém separar manchete de infraestrutura. O BRICS Pay ainda é um projeto em teste, mas ele não nasce no vácuo: apoia-se em trilhos que já funcionam. O mais relevante é o CIPS, o sistema chinês de pagamentos interbancários, pensado como alternativa ao SWIFT para transações em yuan. Em março de 2026, o CIPS processou mais de 750 mil transações em um único mês, movimentando o equivalente a cerca de US$ 270 bilhões, com participantes diretos e indiretos espalhados por mais de cem países.

Em paralelo, o comércio dentro do bloco já migrou boa parte para moedas locais — estimativas apontam que cerca de dois terços das trocas intra-BRICS hoje dispensam o dólar, contra menos de um quinto uma década atrás. O BRICS Pay seria, nessa leitura, menos uma revolução e mais a camada de varejo que faltava: a interface que conecta esses sistemas e permite que uma empresa média, e não só um banco central, pague um fornecedor do outro lado do mundo sem triangular por Nova York.

~67%
do comércio intra-BRICS já é liquidado em moedas locais (ante menos de 20% há dez anos)
~US$ 270 bi
movimentados pelo CIPS, o trilho chinês, em março de 2026 (em um mês)
~40%
do PIB global é gerado pelos países do BRICS, segundo o Conselho Empresarial do bloco

A ambição — e o número que a resume

O Conselho Empresarial do BRICS projeta que, se bem estruturado e com os incentivos certos, o BRICS Pay poderia responder por 15% a 20% do comércio internacional até 2030. O sistema deve ser vitrine da 18ª Cúpula do BRICS, prevista para setembro de 2026, sob presidência rotativa da Índia. A retórica oficial é confiante. A letra miúda, nem tanto.

O calcanhar de aquiles: em qual moeda?

A pergunta mais sensível do projeto segue sem resposta. Pagar “em moedas locais” é simples entre dois países; entre nove ou dez, com câmbios voláteis e graus de conversibilidade muito diferentes, a conta fica espinhosa. Falta ao bloco uma moeda com a liquidez, a estabilidade e a confiança que o dólar acumulou ao longo de um século — e nenhum candidato interno quer ceder esse protagonismo a outro.

O que dizem os céticos

Para Matheus Cecílio, doutor em economia política internacional pela UFRJ, o impacto imediato do BRICS Pay seria operacional, não geopolítico: reduzir custos e atritos para quem já comercia dentro do bloco, sem a pretensão de aposentar o dólar. A implementação técnica, diz ele, é viável no curto e médio prazo — o difícil é o resto. Igualar a confiança e o alcance da moeda americana exigiria mudanças estruturais muito mais profundas, e uma moeda forte capaz de sustentá-las permanece, nas suas palavras, uma condição distante.

Luiz Antonio Joia, da FGV/Ebape, aponta o obstáculo de fundo: a heterogeneidade do bloco. O PIX funciona porque opera dentro de uma única jurisdição, sob um único banco central, com uma única moeda e um único arcabouço regulatório. O BRICS Pay teria de costurar várias moedas, vários sistemas jurídicos, infraestruturas tecnológicas desiguais e interesses políticos que nem sempre convergem. A China é altamente digitalizada; outros membros ainda têm parcelas grandes da população se adaptando a pagamentos digitais. No curto prazo, concordam os analistas, o sistema conviveria com o SWIFT — não o substituiria.

Pagamento virou geopolítica — e o PIX provou

Há um detalhe revelador nessa história: o próprio PIX, modelo do projeto, tornou-se objeto de disputa. Ao oferecer transferências instantâneas e gratuitas, ele reduziu a dependência de bandeiras de cartão como Visa e Mastercard — e isso incomodou. O episódio ilustra uma verdade que o BRICS Pay apenas amplia para a escala global: infraestrutura de pagamento nunca é neutra. Quem define o trilho define quem cobra pedágio, quem vê os dados e quem pode ser barrado. A “neutralidade” de um sistema de pagamentos é sempre a neutralidade conveniente a quem o controla.

É aqui que convém um olhar sóbrio. A queixa dos países do BRICS contra a politização do dólar tem fundamento: um meio de troca global que pode ser desligado por decisão unilateral deixa de ser apenas dinheiro e vira instrumento de poder. Mas trocar um monopólio por um arranjo coordenado por Estados — vários deles com histórico de controle de capitais e câmbio administrado — não garante mais liberdade ao usuário final; pode apenas mudar o endereço de quem segura a chave. A concorrência entre trilhos tende a beneficiar quem paga; a substituição de um guardião por um comitê de guardiões, nem sempre.

Glossário rápido
SWIFT
Rede de mensagens interbancárias sediada na Bélgica que conecta mais de 11 mil instituições. Não transfere dinheiro — transmite as instruções de pagamento entre bancos.
CIPS
Sistema chinês de pagamentos interbancários transfronteiriços, criado como alternativa ao SWIFT para liquidar operações em yuan.
Desdolarização
Movimento de reduzir a dependência do dólar no comércio, nas reservas e nos pagamentos internacionais. Hoje é erosão gradual, não ruptura.
COFER
Relatório trimestral do FMI que mede a composição das reservas cambiais oficiais do mundo por moeda — a principal régua da hegemonia do dólar.
Reservas cambiais
Ativos em moeda estrangeira que um banco central guarda para defender a própria moeda e honrar compromissos externos.
O que levar para casa
  1. BRICS Pay é real como projeto, mas ainda é teste: a infraestrutura de base (como o CIPS) já funciona; a camada que une tudo, não.
  2. O motor da desdolarização é político, não técnico — o congelamento das reservas russas em 2022 ensinou que depender de um sistema desligável é risco, não conveniência.
  3. O gargalo decisivo é monetário: sem uma moeda comum confiável e líquida, pagar “em moedas locais” entre dez economias desiguais é mais fácil de anunciar do que de operar.
  4. Desconfie das duas narrativas extremas: nem o dólar vai ruir amanhã, nem o status quo é eterno. A disputa real é por trilhos — e trilhos são poder.
Uma reflexão para fechar

O dinheiro é, no fundo, uma tecnologia de confiança — e confiança não se decreta, se acumula. O dólar levou um século para conquistar a sua; perdê-la leva décadas, não meses. O que o BRICS Pay de fato revela não é o fim de uma hegemonia, mas o início de um mundo com mais de um encanamento para o dinheiro. E talvez seja isso, mais do que qualquer moeda em particular, o que redefine o século: não quem vence, mas o fato de haver, enfim, concorrência.

Este conteúdo é educacional e não constitui recomendação de investimento. A Academy Ulianov não é consultora financeira. Faça sua própria pesquisa (DYOR). Dados de 2026, sujeitos a variação.

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